RELATO DA PARTICIPAÇÃO DO PROF. ROBERTO BRANDÃO NA CLACSO 2025, REALIZADA NA CIDADE DE BOGOTÁ, COLÔMBIA, DE 9 A 12 DE JUNHO DE 2025

Foto: Protesto das mães que perderam seus filhos/as por conta da violência do Estado, primeiro dia da CLACSO 2025, Praça Ernesto Che Guevara – Universidad Nacional de Colombia,

O objetivo desse relato é dar satisfação a classe trabalhadora brasileira, da minha participação na X Conferência Latino-americana e Caribenha de Ciências Sociais (CLACSO 2025), a qual não tive nenhum apoio financeiro do Governo do Estado do Rio de Janeiro, tão pouco da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

Trata-se do maior encontro de ciências sociais e humanidades do mundo, cujo tema central foi “Horizontes e transformações para a igualdade: Democracias, resistências, comunidades, direitos e paz”. A CLACSO 2025 reuniu mais de 15.000 participantes de diversas partes do mundo, em mais de 1500 atividades, espalhadas em 25 locais diferentes. Foi cansativo ir de um lado para o outro, tentando abraçar o máximo de conhecimento possível. Diferente de outras edições, não houve credenciamento/crachá ou fornecimento de qualquer outro tipo de material. Todas as informações estavam contidas no site oficial, o que causou certa dificuldade nos momentos em que a internet não funcionou, principalmente para administrar os deslocamentos, seja a pé ou de táxi. Por outro lado, permitiu que qualquer pessoa pudesse participar, mesmo sem inscrição no evento.

Em minha participação, além de apresentar meu trabalho: “IMPACTOS DO PROCESSO DE NEOLIBERALIZAÇÃO, NO CONTEXTO DA INSERÇÃO DE QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL E ITINERÁRIOS FORMATIVOS, NO CURRÍCULO DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS”, priorizei as atividades relacionadas ao eixo temático: “direito à educação, políticas públicas e alternativas pedagógicas”, mas também participei dos grupos que discutiam “Ambiente, mudança climática, transições e desenvolvimento social” e “povos indígenas”, entre os 25 eixos temáticos propostos. Como era esperado para um evento desse porte (e relevância social), foi uma experiência bastante enriquecedora, com intercâmbio acadêmico, cultural e político, com pensadores de toda América Latina e Caribe. Abaixo, um resumo das principais observações/análises críticas/aprendizados:

1. Educação pública. Colombianos relatam “agressões as escolas públicas da Colômbia” (supressão de recursos públicos, precariedade das condições de educação inclusiva, decisão de suprimir o que é público, etc.), com o propósito de debilitar a função social da escola. Nessa discussão, penso que foi consenso que nosso maior desafio hoje é impedir o avanço da privatização da educação, em especial a plataformatização da educação. Foi elogiado o sistema de controle brasileiro de custo por estudante, embora eu não tenha entendido o argumento. Fiz algumas intervenções no sentido de pensar se é possível uma luta pelo direito a educação sem uma luta anticapitalista, e percebi que não houve consenso, embora a ampla maioria avalia que não é possível. Inclusive uma brasileira fala em “capitalismo selvagem”, passando a ideia de que há um “capitalismo humanizado”, e não a essência do capitalismo que é a luta de classes.

2. Movimento sindical. Até onde acompanhei, as discussões giram entorno dos impactos do neoliberalismo, principalmente no “desfinanciamento” da educação, e consequentemente ameaça aos 60% de gastos com trabalhadores da educação. Fiz uma intervenção no sentido de pensar se é possível uma luta sindical sem uma luta anticapitalista, utilizando como exemplo o caso do atual técnico da seleção brasileira de futebol, que ganha 5,3 milhões de reais por mês. Percebi que a mesa (5 pessoas) ficou em silêncio, com exceção da representante do movimento #PorlaPública (parece ter relação com a CNTE no Brasil), a qual não só endossou a ideia de que não é possível, mas também reforçou o caráter internacionalista na busca em globalizar a luta por justiça e igualdade. Houve menções e apoio a causas importantes, como a solidariedade ao povo palestino.

3. Povos indígenas. Uma pesquisadora mexicana relata experiência exitosa de uma universidade indígena, e quanto essa instituição tem impactado a vida dos jovens XHIDZA. Por tudo que assisti, a semelhança da educação especial, tenho a impressão (empiria) de que os/as indígenas latino-americanos/as e caribenhos/as, mais de que uma educação decolonial e comprometida com os saberes tradicionais, desejam uma formação com bases em sua auto determinação, dentro dos seus próprios territórios.

4. Mudança Climática. Participei de uma mesa sobre educação ambiental crítica e conheci um biólogo colombiano, onde conversei longamente com ele sobre o contexto histórico ambientalista. Há acordo de que o limite do capitalismo é o ambiente, porém minhas impressões são de que, mesmo entre os educadores ambientais, que se dizem críticos, eles avaliam que é possível atuar nas “brechas” do sistema capital e promover “mudanças ambientais significativas”. Pontuei que a velocidade com que nossos companheiros promovem a consciência crítica da classe trabalhadora é infinitamente menor do que as decisões da classe dominante, sobretudo na carbonização do planeta. Ou seja, de que adianta investir em “teto verde”, por exemplo, para atenuar o desconforto climático, se uma simples decisão (imperialista) desacelera a luta por justiça climática mundial, e ameaça a vida planetária? A história da luta por justiça ambiental e social é a história da luta de classes. Por isso, renova-se a importância de se discutir “politicamente” esse tema nos espaços formais, informais e não formais de educação, para além das aulas de ciências e biologia.

Por fim, não foi possível participar do Painel 266: Reimaginando o futuro da esquerda na América, pertencente ao Eixo 15: Movimentos sociais, ativismo e subjetividades políticas. Porém, reproduzo aqui o texto fruto das discussões coletivas pré-CLACSO, o qual tenho concordância na denúncia, embora não explicita claramente o horizonte socialista no anúncio:

“A América Latina está em uma encruzilhada. O caminho a seguir como região (para o bem ou para o mal) não é definido, mas é disputado. Em um extremo está a opção distópica de avançar na necropolítica e a consolidação de um (narco)neoliberalismo autoritário. Por outro lado – talvez um caminho mais utópico hoje do que em qualquer outro momento – a entrada em uma segunda onda de governos progressistas, nacional-populares, de esquerda, capazes de retomar o caminho da construção da sociedade do bem viver, de viver “saboroso”, de viver com dignidade. No plano geopolítico, estamos testemunhando uma crise hegemônica que, ligada à crise do capitalismo, afunda suas raízes tão profundamente que até mesmo o casamento entre neoliberalismo e democracia representativa, antes tão frutífero, se torna cada vez mais insustentável. Como nos anos setenta, parece que hoje estamos entrando em um ciclo perverso de recessão econômica, hiperconcentração de riqueza social e cerco de democracias. As economias do Sul global o vivenciam com suas próprias particularidades. Na região, a crise e sua transição se expressam em força de trabalho precária e vidas precárias. Os processos de desindustrialização aumentam o exército de reserva, que se apresenta com tristes opções: a. tornar-se auto-explorado, integrando o grupo de trabalhadores expropriados de seu tempo por meio de plataformas digitais ou trabalho comercial ou serviços de rua; b. fazer parte do grupo explorado pelo modelo de exportação de trabalho desencarnado nos pseudo-processos de industrialização (maquilas) que chegam com grande parte do investimento estrangeiro direto; c. Tornar-se trabalhador da indústria do tráfico de drogas ou do crime organizado; d. migrar diretamente; ou, por exemplo, “simplesmente” implorando. Mas os cidadãos desta parte do mundo não ficam parados e resistem de maneiras criativas. Uma visão estruturalista e determinista diria que o sistema molda as condições de nossos povos, e é difícil fazer qualquer coisa para mudá-las. Isso é um erro. A ideologia e sua implementação política são importantes, e é provavelmente a melhor política anticíclica que a região tem. De fato, é evidente que há uma clara diferença na economia política redistributiva dependendo se o signo de governo é neoliberal ou popular-nacional. Os primeiros têm padrões de comportamento pró-cíclicos: seguindo a direção da economia mundial, reproduzem a desigualdade e concentram recursos no 1% mais rico em detrimento da grande maioria.”

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